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O que realmente aconteceu em Roswell?

60 anos … Qual é a verdade por trás do santo graal da UFOlogia?

Primeira página do Roswell Daily Record. 8 julho 1947

por Gary Bates
traduzido por Daniel Ruy Pereira (Considere a Possibilidade)

Que grande evento mundial faria com que a gigante CNN fizesse transmissões ao vivo de Roswell, Novo México, em julho de 1997, enquanto dezenas de milhares de pessoas visitavam a pequena cidade?

Os visitantes celebravam o 50 aniversário de um evento que, se realmente aconteceu como eles crêem, deveria ter redefinido completamente as concepções do homem sobre o seu lugar no universo. Esses ‘verdadeiros fiéis’ dos ÓVNIS defendem que alienígenas de outro planeta colidiram seu disco voador enquanto aterrissavam em um rancho local, e que o governo dos EUA tem encoberto as evidências desde então.

Em julho de 1947, o jornal Roswell Daily Record publicou na primeira página o título ‘RAAF captura disco voador em um rancho na região de Roswell’. Assim começou a lenda do ‘Incidente de Roswell’, que deu origem a dúzias de livros, filmes e séries de TV.

A história

Em meados de junho de 1947, W.W. ‘Mac’ Brazel descobriu alguns destroços. O xerife local, achando que aquilo deveria ter alguma importância militar, contatou o Major Jesse Marcel—uma figura chave neste incidente—da Base Aérea do Exército em Roswell. Marcel e o oficial de inteligência Sheridan Cavitt foram enviados ao rancho de Branzel. Cavitt pensou que aquilo provavelmente teria vindo de um balão meteorológico, mas Marcel tinha outras ideias. Sua esposa e filho ainda se lembram dele falando sobre discos voadores.1 Em 8 de julho o oficial de relações públicas da base anunciou que eles tinham recuperado um disco voador. Embora eles tenham se retratado desta afirmação alguns dias depois, a ‘prova de que fôramos visitados por extraterrestres fora ‘revelada’.

Como Marcel ficou convencido de que era um disco voador? Algumas semanas atrás, o empresário Kenneth Arnold tornara-se uma sensação na mídia quando afirmou que seu avião leve foi ultrapassado sobre as Montanhas Cascade, Washington, por nove discos como ‘discos que voavam por sobre a água’. Foi assim que o termo ‘disco voador’ pegou, e a publicidade levou a uma explosão de avistamentos naquele ano—850 no total—ao passo que as pessoas começaram a olhar para os céus com expectativa.

Poucos dias após o anúncio original, uma coletiva de imprensa explicou que nada mais que um balão meteorológico havia caído no rancho de Branzel. Mas Marcel não se convenceu. Ele disse que aquilo não parecia com nenhum balão meteorológico que ele já tinha visto antes—e ele, na verdade, estava certo.

O ‘disco voador’ de Roswell logo saiu de cena por cerca de 30 anos. Então, subitamente, tornou-se maior do que nunca!

A ressurreição de Roswell

Em 1978, o ufólogo mundialmente famoso Stanton Friedman concordou com Marcel, que ressuscitou sua teoria do disco voador afirmando que o governo havia substituído os destroços originais com materiais de balões meteorológicos. Teorias de conspiração, sobre o governo encobrindo algo, floresceram. Em 1980, dois famosos autores caçadores de ÓVNIS escreveram O Incidente Roswell,2 afirmando que eles entrevistaram 75 testemunhas. Essa obra tornou-se o livro mais famoso sobre Roswell, mostrando supostos extratos de documentos governamentais secretos. Um deles tinha a assinatura do Presidente Harry S. Truman, autorizando um grupo secreto, chamado ‘Majestic 12’ (MJ12, mais tarde conhecidos na tradição OVNI como os ‘Homens de Preto’) para lidar com os incidentes de ÓVNIS. O livro também afirmou que as carcaças de Roswell incluíam:

Foto US Air Force

Balões ultra-secretos sendo lançados.

  • Fragmentos de um material flexível ‘exótico’ que não rasgava, queimava ou quebrava.
  • Marcações alienígenas na carcaça, talvez escrita ou hieróglifos.
  • Corpos de alienígenas recuperados dos destroços.

O livro alcançou sucesso espetacular; Roswell verdadeiramente tornou-se um ‘incidente’.

Tecnologia alienígena secreta?

Houve de fato um encobrimento em Roswell, mas não de uma tão interessante e avançada tecnologia alienígena caindo em nosso planeta. Estamos falando do início da Guerra Fria.3 A América tinha ‘a bomba’; a União Soviética estava desenvolvendo uma tecnologia similar. Antes da era dos satélites de segurança, um programa ultra-secreto foi iniciado, com o intuito de levar os americanos a monitorar os testes atômicos dos soviéticos. Vários balões como os meteorológicos seriam enviados para o alto, nas correntes estratosféricas. Estes continham radares refletores—basicamente pipas com folhas de estanho, feitos com bastões, chamados alvos RAWIN. Uma companhia de brinquedos fabricou esses pipas, usando nada mais que fita reforçada. Os balões eram feitos de borracha neoprene, tubos de alumínio e aros. Primitivos para os padrões atuais, eles carregavam microfones de baixa frequência, um sonar e cargas de baterias.

Diagrama de balões meteorológicos do Projeto Mogul

Sob um programa classificado como ULTRA SECRETO 1A, começou o Projeto Mogul. A ideia era criar grandes balões atmosféricos—mais de 23 em uma série—com o objetivo de enviá-los à estratosfera, onde poderiam ser carregados ao redor do mundo por ventos incrivelmente rápidos. Essas séries continham refletores de radar que eram basicamente grandes pipas de papéis-alumínio feitas com varetas, chamados alvos RAWIN. Uma companhia de brinquedos produziu as pipas usando nada mais que fita adesiva reforçada. Os balões foram feitos de borracha neoprene, tubos de alumínio e ilhós. Eles levavam microfones de baixa-frequência, um sonobuoy e baterias. Seu propósito era ouvir os testes atômicos, em solo, dos soviéticos. Era uma tecnologia primitiva pelos padrões atuais, mas era um modo ingênuo, se não de imenso sucesso, de monitorar atividades a milhares de quilômetros de distância.

Em 4 de junho de 1947, um destes foi lançado do Campo Espacial do Exército em Alamogordo, Novo México, não muito distante de Roswell. Alguns dos balões incendiaram devido à exposição ao sol. Os militares perderam contato com o aparelho a apenas 27 km de seu eventual local de colisão. Informações sobre isso permaneceram secretas por mais de 40 anos, porque os EUA não queriam que a União Soviética soubesse que estavam sendo espionados. Oficiais de baixa patente como Marcel não tinham ideia disso, mas Marcel sabia que não era um balão meteorológico comum. Ao ouvir as negativas do governo, e com sua pré-crença em ÓVNIS, ele somou dois mais dois e chegou a cinco, isto é, ‘E.T.’.

Será que alguém realmente se surpreende com os governos manterem sigilo sobre certas coisas? Mas recorrer a teorias de conspiração puramente especulativas só porque não se está de posse de todos os fatos é algo injustificável.

Por que tantas pessoas acreditam em Óvnis?

Os ‘hieróglifos alienígenas’ não eram nada mais que figuras infantis usadas nas embalagens das fitas

É incrível que algo tão terráqueo fosse confundido com um disco voador. Até mesmo os ‘hieróglifos alienígenas’ não eram nada mais que imagens de flores e desenhos infantis na embalagem da fita. E as afirmações do livro? Bem simples: não havia corpos de aliens. Da mesma forma, Brazel jamais testificou ter visto qualquer metal nos destroços—não havia nenhum material inquebrável em especial. E a assinatura do Presidente Truman? Acabaram descobrindo que ela havia sido ‘retirada’ de outro memorando. O livro continha material fraudulento.

Já houve inúmeras investigações em Roswell. Em 1994, o deputado norte-americano, crente em óvnis, Steven Schiff, perguntou ao órgão independente General Accountig Office (GAO, equivalente ao Tribunal de Contas da União, no Brasil) para revisitar as afirmações, embora ele não tivesse obtido o que queria ouvir.4 Os relatórios oficiais resumem bem os principais problemas:

‘… foi originalmente relatado que os destroços haviam sido recolhidos de apenas um local. Isso cresceu de uma quantidade mínima de destroços recuperados de uma pequena área a carregamentos de destroços, em aviões, e até múltiplos e imensos “campos de destroços.” De modo semelhante, a descrição relativamente simples de bastões, papel, fita e papel alumínio cresceu para materiais exóticos, com hieróglifos e materiais semelhantes a fibra óptica. Adicionando algum grau de credibilidade às afirmações que surgiram desde 1978 [desde que Marcel reviveu a história] está a aparente profundidade de pesquisa de alguns autores e a extensão de seus esforços. Suas afirmações são ouvidas, de algum modo, porém, pelo fato de que quase toda a sua informação veio de relatos verbais muitos anos depois do suposto incidente ter ocorrido... Em outros casos, a informação fornecida é de segunda ou terceiramão [sic], tendo sido passada por um amigo ou parente depois que o protagonista morreu. O que invariavelmente falta na inteira exploração do “Incidente de Roswell” é um documento oficial positivo ou evidências físicas de qualquer tipo que dêem suporte às afirmações daqueles que alegam que algo incomum aconteceu.’5

Uma guerra de cosmovisões

Quando a tão disseminada crença na evolução sobre a Terra une-se a afirmações especulativas sobre evolução em outros planetas, o incrível impacto visual dos efeitos especiais em filmes de ficção científica etc., as crenças podem começar a ganhar vida por si próprias. Roswell é um exemplo clássico.

Quantas vezes você já ouviu alguém dizer: ‘Deve haver vida lá fora’? Assim, essas pessoas tendem a procurar informações que corroborem suas crenças. Porém, como constantemente apontamos, toda evidência é interpretada através da estrutura de sua cosmovisão. Os que acreditam em óvnis desejam que exista vida inteligente em outros lugares no universo. Para muitos isso fornece sentido e propósito em uma escala cósmica—uma religião substituta.

O Filme da Autópsia dos Aliens

Um documentário de 1995 afirmava mostrar a íntegra de autópsias sendo realizadas em alienígenas recuperados do acidente de Roswell. O narrador, Jonathan Frakes, que interpretou o Comandante Riker em Star Trek: the Next Generation, conta aos espectadores que eles estão vendo verdadeiros seres de outro planeta, e que o filme é autêntico, dos estoques da Kodak, de 1940.

Contudo, mais tarde foi revelado que apenas parte do filme original foi submetida a análise. Um porta-voz da Kodak contou ao Sunday Times, em Londres, ‘Não há como eu autenticar isso. Vi uma imagem na impressora. Certamente poderia ser um filme antigo, mas isso não significa que é como os aliens foram filmados.’6

Após muitos ao redor do mundo terem visto esse filme, outro documentário chamado As maiores fraudes do mundo: segredos finalmente revelados, tirou o cisco dos nossos olhos, ao entrevistar um dos atores pagos para participar do filme. Aliens autopsy: fact or fiction? Permanece como uma das maiores fraudes cometidas pela humanidade.

Artigos relacionados

Referências e notas

  1. Fitzgerald, R.; in: Story, R.D., (Ed.), The Encyclopedia of Extraterrestrial Encounters, Robinson, Londres, pp. 606-618, 2001. Voltar ao texto.
  2. Charles Berlitz e William Moore. Berlitz foi escritor de ocultismo, e escreveu outros livros especulativos sobre o Triângulo das Bermudas e o Experimento da Filadélfia. Voltar ao texto.
  3. Refiro-me às bombas atômicas de fissão nuclear que foram lançadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Voltar ao texto.
  4. O GAO é o braço investigativo do congresso dos EUA. O relatório está disponível gratuitamente online. Veja a ref. 5. Voltar ao texto.
  5. ‘Report of Air Force Research Regarding the Roswell Incident 1994,’ www.af.mil/library/roswell/roswell.asp, 22 março 2007. Voltar ao texto.
  6. ‘Alien Autopsy; film a hoax concludes scientific organization,’ www.csicop.org/articles/roswell_film.html, 25 agosto 1995. Voltar ao texto.

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